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ARTIGO
: O CASO DAS MINHOCAS |
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AUTOR
: Alexandre Camargo |
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Texto resultante de uma conversa
na lista de discussão "Animadores"...:
"Vou te contar uma historinha típica:
o cliente (geralmente da agência) chega e diz que
tem uma idéia. Ele quer usar minhocas numa propaganda
de macarrão. O filme termina com uma piada grotesca,
que só ele acha engraçada.
Ele
não tem a menor idéia de como essas minhocas
serão, e não possui nem um esboço
a lápis do que imagina (apesar de possuir alguns
dos melhores ilustradores do Brasil trabalhando com ele).
A única coisa que ele sabe é que essas minhocas
têm que ser , palavras dele, "malandras, bem
brasileiras".
Então
, dá-lhe alguém desenhar uma pilha de conceitos,
para ver o que ele gosta. Descobre-se algo interessante:
ele não sabe o que quer, mas sabe exatamente o
que NÃO quer.
Inúmeras
tentativas,e ele aprova um dos desenhos. Alguém
começa a modelar em 3d o personagem, seguindo à
risca o desenho escolhido. Depois de um bom tempo (que,
dependendo do prazo pode envolver trabalhar à noite,
e fins-de-semana) acaba-se chegando numa adaptação
quase literal do desenho.
Aí,
surpresa: o cliente quer uma série de mudanças
. Por exemplo, ele acha que as minhocas estão muito
nojentas. Elas não podem ser mais fofinhas? Ele
também não gosta da cor, as minhocas estão
muito escuras. Ah, e estamos perdendo o interesse dos
jovens. Que tal se
ela usasse algo bem criativo, como um boné?
Mais
uma semana de trabalho, e está pronto o novo modelo:
uma minhoca de pelúcia azul, com boné.
Para
essa reunião, aparece um outro cliente. Descobre-se
que ele é o verdadeiro bam-bam-bam, e que não
tinha visto nada do projeto até agora. Primeira
reação dele: "Ei, minhocas não
são assim! Elas são nojentas, marrons, e
sem-boné!".
Pede-se
desculpas por esse deslize, e recupera-se uma das últimas
versões da primeira minhoca. Geralmente, essa versão
tem um nome bem sugestivo, como "minhocaNova42_finalB".
Completo seu destino místico, esse cliente sai
da reunião, para nunca mais ser visto. É
rapidamente substituído por uma cópia idêntica.
O
modelo é passado para a pessoa que irá fazer
o character set-up. Esse é o processo pelo qual
será criado o esqueleto que controlará os
movimentos de nossa minhoca-maravilha. É tão
técnico e chato, que o cliente nem sabe que essa
parte do trabalho existe.
Simultaneamente,
outra pessoa está pintando a textura realista de
minhoca nojenta. Cada ruga, cada reentrância asquerosa
tem que ser pintada à mão. Mas o cliente
também ignora essa parte do trabalho (ainda bem).
Na cabeça dele, provavelmente nós temos
botões
de "Pintar Minhoca".
Quando
finalmente o modelo está pronto para ser animado
( e supondo que não queiram alguma pequena alteração,
como colocar asas na minhoca), o prazo praticamente evaporou.
Nesse momento já filmaram os cenários ao
vivo onde as minhocas serão colocadas, e já
montaram uma primeira versão do comercial, ainda
sem as minhocas mas com os tempos corretos.
O
animador vai ter um tempo duro pela frente. A cena chave
do comercial (onde uma das minhocas precisa plantar bananeira
e dar três saltos mortais para trás, enquanto
assobia o Hino da República) têm 29 FRAMES.
Você leu correto; menos de um segundo.
Depois
de muito suor e lágrimas (e, eventualmente, algum
sangue), a primeira versão do filme está
pronta. As cenas já estão animadas, mas
ainda faltam algumas coisas na iluminação,
e no material das minhocas.
Para
aprovar o filme, clientes de tamanho normal não
são suficientes. Com uma explosão de enxofre
(nem sempre), aparece o Líder da Fase. Ele é
o Rei da Cocada Preta. O Darth Cliente. É fácil
reconhecê-lo, porque além da capa preta Giorgio
Armani ele é cercado por um séquito
de pequenas criaturas, que ficam murmurando coisas sem
sentido, como "talvez sim, talvez não",
e "eu acho que não sei".
O
filme é passado para Lorde Cliente. Silêncio
sepulcral. Ele está pensando no que dizer. O séquito
está agitado, esperando a reação
de seu Mestre. Diz a lenda que certa vez ele aprovou um
filme de primeira - mas é só uma lenda.
Ele suspira, e diz seu veredito: o filme
não é engraçado. A piada nojenta
do final é apenas nojenta. No momento em que ele
profere essas frases, o primeiro cliente (que criara a
piada que ninguém gostou) desaparece silenciosamente
no fundo da sala, mimetizando com
o carpete.
Agora, vale-tudo.
Todos começam a falar ao mesmo tempo, com idéias
para a piada final. "A minhoca podia arrotar",
diz um. "Ela podia fazer que nem naquele filme",
diz outro. No final, decide-se que ela vai arrotar, enquanto
salta no ar e a imagem congela ("que nem
naquele filme"). Isso está acontecendo numa
sexta-feira, final da tarde. A entrega será na
segunda-feira.
A equipe 3d
se entreolha em silêncio.
Sobem créditos".
Abraço,
Alexandre Camargo
www.3dluvr.com/camargo